Pedro Costa Pedro Costa é graduando em História na Universidade de São Paulo e professor particular. Após alguns anos acumulando conhecimento sobre a história da medicina e das drogas, atualmente realiza um projeto de divulgação científica nas redes sociais (@historiotropia). Frequenta reuniões do LEHDA-USP (Laboratório de Estudos Históricos das Drogas e da Alimentação) e também é militante pela legalização. Nasceu em Salvador, mas mora em São Paulo.

O mistério da Cannabis na Austrália

4 minutos de leitura

Sim, isso é maconha. Abaixo nós explicamos o porquê.

A Cannabis é uma planta com várias faces. Já percebeu a enorme variedade possível dentro de uma única espécie? A planta pode ser alta, baixa, arbustiva, alongada ou em formato de pinheiro; pode florir em resposta ao fotoperíodo ou à idade; ter um aroma cítrico ou madeirado; e assim por diante.

Cada cultivar, cada cepa, cada fenótipo possui uma peculiaridade. Por muito tempo foi debatida a clássica divisão em entre Sativa e Indica, que muitos conhecem. Entretanto, essa divisão não é tão sólida quanto parece e deixa de lado muitas diferenças e semelhanças entre variedades da planta. Falamos disso no texto de Origens da Cannabis.

Hoje falaremos sobre uma variedade misteriosa e ainda pouco estudada, que ficou conhecida como Australian Bastard Cannabis – ou “Cannabis bastarda da Austrália”. Ela tem um formato bastante peculiar e características próprias, coisas que tem chamado a atenção de cultivadores e cientistas da Oceania (e ao redor do planeta).

Vamos conhecê-la melhor?

À esquerda, a ABC adulta vista de cima. À direita, detalhe do florescimento mostrando os botões.

Características e surgimento na comunidade

A ABC, como ficou conhecida a Cannabis nativa da Austrália, tem como principal diferença a sua estrutura foliar. Ao invés de folhas laminadas, serrilhadas e longas, essa variedade de maconha possui folhas mais compactas e tortuosas, sem o típico alongamento da folha de Cannabis que conhecemos.

Australian Bastard Cannabis Leaves
Comparação com a folha comum de Cannabis, à direita.

Apresenta um perfil mais arbustivo, bastante próximo do cânhamo – como nas variedades Ruderalis. Não cresce tanto quanto as plantas conhecidas, lembrando o desenvolvimento das genéticas mais selvagens que ainda existem entre a China e o Cazaquistão.

Esse tamanho reduzido é bastante comum em tipos de Cannabis pouco selecionadas para agricultura, mantendo características “selvagens” que seriam eliminadas no longo processo de domesticação. A produção de THC também não é alta (como nas plantas selvagens) mas pode ser manipulada com domesticação.

Uma curiosidade intrigante é a semelhança dessa variedade com várias características do lúpulo (Humulus Lupulus). Na verdade, a planta responsável por produzir as cervejas é uma parente muito próxima da maconha. Tanto a Cannabis quanto o Lúpulo pertencem à família Canabaceae, e nas taxonomias esse parentesco é bastante evidente.

Por causa dessas semelhanças alguns tem imaginado que a Cannabis da Austrália – a ABC – pode ser essencial para traçar o elo perdido entre a maconha e o lúpulo, que muito provavelmente possuem um ancestral comum.

Fruto do Lúpulo (Humulus lupulus), utilizado na produção de cervejas, um parente próximo da Cannabis.

A ABC foi identificada por pioneiros da legalização na Austrália entre as décadas de 1970 e 80. Muitos reivindicam a descoberta, mas a verdade é que não sabemos muito sobre a origem dessa variedade. Ela teria sido encontrada em grande volume na costa oeste do país, mas tem se tornado cada vez mais rara.

Foi comentada, debatida e experimentada muitas vezes na comunidade de cultivadores australianos por sua aparência mais discreta. Tal qualidade diminuiria o perigo de chamar atenção das autoridades. Entretanto, há certa dificuldade em criar linhagens mais potentes em THC, como relatam alguns. Ainda mais, os genes que determinam a aparência da planta indicam ser recessivos, o que complica ainda mais o processo de seleção artificial.

O que sabemos?

ABC Australian Bastard Cannabis
Botão florido da ABC.

Muito pouco. A verdade é que a ABC, ainda que relativamente famosa, ainda não passou por estudos científicos revisados e sistemáticos que expliquem melhor suas características. Alguns bancos genéticos alegam ter sequenciado o DNA da variedade junto com a realização de uma cromatografia, mas com pouco respaldo ou confirmação. A maior parte das informações está armazenada em blogs de entusiastas.

O mesmo pode ser dito sobre a história dessa variedade, que é fonte de polêmica. Em 2004 o autor John Lawrence Jiggens apontou uma possível hipótese: a planta seria uma mutação das primeiras sementes de Cannabis Sativa chegadas no país através dos colonizadores ingleses. Como é sabido, a Cannabis era cultivada ao redor do planeta como matéria-prima industrial principalmente para barcos e cordas.

Outra possível saída foi apontada por John Rainford. Ele imagina que a mutação teria originado entre 1840 e 1900, durante um grande processo de importação de camelos para o oeste da Austrália (visando realizar transportes no terreno desértico do país). Os milhares de camelos importados vinham com seus cuidadores árabes, que teriam espalhado a planta junto com a migração.

Até hoje tais camelos estão lá. Com a passagem do tempo o transporte animal foi sendo substituído pelos automóveis, o que resultou no abandono dos camelos pelo deserto australiano. Eles se tonaram ferais, isto é, animais domesticados que voltaram a ser “selvagens”. Esse fenômeno pode acontecer com cachorros, vacas e outros animais depois de algumas gerações na natureza.

Camelos no sul do país em 2013.

Entretanto, existem muitos problemas não resolvidos. O território da Austrália é conhecido por suas espécies exóticas e muito utilizadas na indústria cultural, como o famoso canguru. Parte dessa herança diversa surge do tempo em que os continentes estavam em outra posição, e muitas linhagens isoladas na Austrália desenvolveram características próprias. É possível que isso tenha acontecido com uma linhagem de Cannabis em isolamento.

Se essa for a origem da ABC, isso coloca em xeque a tese de que tal variedade teria vindo dos colonizadores ingleses ou dos camelos. Nesse caso a Cannabis “bastarda” seria muito mais antiga do que imaginamos, mas só teria sido identificada recentemente.

Maconha é legal na Austrália?

Survey Shows Cannabis Acceptance Is Growing In Australia | High Times

Sim e não. Basicamente, a Cannabis medicinal foi aprovada no ano de 2016, mas o uso recreativo adulto só é aceito em algumas províncias – como a região da capital Camberra. Nesse território o paciente medicinal maior de 18 anos pode possuir até 50g de Cannabis, ter duas plantas por pessoa ou até quatro por domicílio. Fora dessa zona apenas pacientes autorizados podem ter acesso à planta.

O cultivo de cânhamo com fins industriais também é um mercado crescente no país, que já possuía alguma tradição naval no seu passado inglês.


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Pedro Costa Pedro Costa é graduando em História na Universidade de São Paulo e professor particular. Após alguns anos acumulando conhecimento sobre a história da medicina e das drogas, atualmente realiza um projeto de divulgação científica nas redes sociais (@historiotropia). Frequenta reuniões do LEHDA-USP (Laboratório de Estudos Históricos das Drogas e da Alimentação) e também é militante pela legalização. Nasceu em Salvador, mas mora em São Paulo.

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