Pedro Costa Pedro Costa é graduando em História na Universidade de São Paulo e professor particular. Após alguns anos acumulando conhecimento sobre a história da medicina e das drogas, atualmente realiza um projeto de divulgação científica nas redes sociais (@baixarfilmeshd). Frequenta reuniões do LEHDA-USP (Laboratório de Estudos Históricos das Drogas e da Alimentação) e também é militante pela legalização. Nasceu em Salvador, mas mora em São Paulo.

Cannabis faz mal para o solo?

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Você já deve ter ouvido falar que o cultivo de Cannabis é exaustivo para o solo ou para a natureza. Isso é uma meia verdade – e lendo abaixo você pode descobrir o porquê.

A parte de verdade merece atenção: a maconha é uma planta que precisa de bastante água. Não só isso, mas uma certa gama de macro e micronutrientes necessários para fornecer um solo propício ao cultivo comercial. Iluminação de qualidade é central nesse processo. Ela cresce praticamente em qualquer substrato se tais critérios forem atendidos. 

Talvez o problema mais marcante seja o consumo de água. Frutas e outros vegetais comestíveis costumam ter uma demanda grande por irrigação, assim como a Cannabis. Quando olhamos para o cultivo outdoor, o consumo se assemelha ao encontrado em tomates e uvas, dependendo do solo e da variação em questão. Já nas técnicas de cultivo indoor, como a hidroponia, essa demanda aumenta mais ainda devido à ausência de solo.

Mas uma polêmica surgiu nos anos recentes: dados iniciais obtidos de pesquisas em British Columbia (Canadá), California e Colorado (E.U.A.) demonstraram resultados alarmantes – o cultivo de maconha em grande escala estaria relacionado ao desvio do curso de certos rios e a intoxicação de espécies nativas, até mesmo atingindo a pesca local.

Então a Cannabis é uma vilã do meio-ambiente e da agricultura sustentável? Muita gente tirou essa conclusão rapidamente.

Porém não, longe disso. O problema é o modelo de plantio, nunca a espécie cultivada. Isso está nas próprias pesquisas.

Um fator essencial para entender esses dados é que eles levam em consideração o mercado ilegal. Mesmo depois da legalização, o tráfico persiste em várias regiões e desregulado, ou seja, utilizando-se das práticas mais nocivas ao cuidado do solo. Normalmente as operações ilegais não tem pudor em desviar afluentes e poços artesianos para suprir seu consumo de água – o mesmo se aplica para o uso de inseticidas e agrotóxicos. No Canadá, por exemplo, a regulação tem sido muito exitosa em evitar a contaminação de espécies silvestres – regulando agrotóxicos e fertilizantes sintéticos.

A imensa maioria das operações legais que apontaram resultados negativos ao ambiente são de escala industrial, seja indoor ou outdoor. É notável como a grande indústria da Cannabis tem adotado práticas muito próximas ao agronegócio que bem conhecemos – inclusive um setor do chamado “Corn Belt” (cinturão do milho) americano tem transitado para o cultivo de cânhamo em modelos muito parecidos, mas com uma lucratividade bem maior. O caso da California deve ser analisado com cautela pois o estado e seu clima árido tem demonstrado tendências de desertificação no longo prazo, o que torna todas as formas de agricultura agressiva um perigo ao solo.

Isso reforça o que foi apontado acima: o atual sistema de agricultura, o modelo produtivo vigente não suportaria um cultivo ecológico de maconha – assim como acontece com a soja, milho, trigo e outras tantas variedades agrícolas. O problema é muito menos a planta e mais como plantamos.

Quer um exemplo? O algodão é uma variedade altamente nociva ao ambiente nos moldes atuais. Ele consome 50% mais água do que o cânhamo para produzir uma fibra de qualidade semelhante. Boa parte do vestuário mundial é feito com algodão. Não só isso, como o cultivo de algodão industrial persiste por mais de 300 anos, sendo um símbolo histórico da escravidão norte-americana e de países como Egito.

Então devemos proibir as roupas de algodão? Não, devemos transformar a produção algodoeira para se adequar social e ambientalmente – usando pequeno cultivo agroflorestal ou agroecológico, por exemplo. O mesmo se aplica para a Cannabis, sacou? 

As opções existem, e com amplo potencial. O cultivo orgânico de cannabis, principalmente outdoor e em estufas, tem uma pegada ecológica muito pequena se comparada ao cultivo industrial que sustenta a “Big Weed Pharma”. Ou melhor, infinitamente menor do que a monocultura de soja e cana-de-açúcar na qual o Brasil tanto insiste e que tem destruído nossos ecossistemas. 

Ainda mais, novidades tem surgido. Entre elas, a descoberta da capacidade da maconha de fito-remediação, ou seja, de limpar o solo, especialmente de metais pesados¹. Diversas variantes plantadas para fibra ou CBD conseguem retirar índices altíssimos de Cadmio (Cd), Níquel (Ni) e Chumbo (Pb) da terra e armazenar nas fibras e folhas. Um dado interessante é que essa interação quase dobrou os níveis de CBD em uma das variantes plantadas. Não se sabe o nível de segurança para o consumo humano nessas plantas, apesar disso. Mesmo assim, a fitorremediação com cânhamo seria uma alternativa possível para restaurar, por exemplo, as terras próximas de Brumadinho e Mariana, após o rompimento das barragens e seu alto volume de metais pesados.

Então da próxima vez que alguém te disser que maconha faz mal ao solo, você deve pensar: que maconha? Como foi plantada? Onde? Qual a escala? Quem são os produtores? Qual a regulamentação? Em que clima e época do ano? São essas coisas que definem se o processo de cultivo de qualquer vegetal será agressivo.

E não sobram alternativas para um equilíbrio socioambiental – falta afrontar alguns interesses e preconceitos, avanço que até o mercado de milho se beneficiaria. 

Se existe uma resposta, ela vem com regulamentação e pesquisa científica. Belê? 

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¹ Linger, P., Müssig, J., Fischer, H., & Kobert, J. (2002). Industrial hemp (Cannabis sativa L.) growing on heavy metal contaminated soil: Fibre quality and phytoremediation potential. Industrial Crops and Products, 16(1), 33–42. https://doi.org/10.1016/S0926-6690(02)00005-5

Pedro Costa
Pedro Costa Pedro Costa é graduando em História na Universidade de São Paulo e professor particular. Após alguns anos acumulando conhecimento sobre a história da medicina e das drogas, atualmente realiza um projeto de divulgação científica nas redes sociais (@baixarfilmeshd). Frequenta reuniões do LEHDA-USP (Laboratório de Estudos Históricos das Drogas e da Alimentação) e também é militante pela legalização. Nasceu em Salvador, mas mora em São Paulo.

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