Pedro Costa Pedro Costa é graduando em História na Universidade de São Paulo e professor particular. Após alguns anos acumulando conhecimento sobre a história da medicina e das drogas, atualmente realiza um projeto de divulgação científica nas redes sociais (@historiotropia). Frequenta reuniões do LEHDA-USP (Laboratório de Estudos Históricos das Drogas e da Alimentação) e também é militante pela legalização. Nasceu em Salvador, mas mora em São Paulo.

Tiradentes: Mineração na colônia e cannabis?

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Em 1792, o dentista e comerciante Tiradentes é enforcado pelas autoridades da colônia portuguesa em Minas Gerais. Durante mais de duzentos anos, ele foi visto como um herói e líder “antecipado” da independência do Brasil. Mas só parte dessa história é verdade…

Vamos falar desse mito – e trazer uma pergunta interessante – existe alguma conexão entre a mineração na colônia e a cannabis? Se liga!

Dormiu na aula de história? Foi mais ou menos assim: a Inconfidência Mineira foi um movimento de protesto contra os excessos tributários impostos pela coroa portuguesa. Naquela época, a mineração era a principal atividade econômica da colônia – foi por causa dela que os primeiros focos urbanos do território surgiram – tanto para aumentar a extração de ouro quanto para abastecer a crescente população.

Porém, ao final do século XVIII, a produção de ouro já estava em plena queda. Como forma de compensar este prejuízo, os portugueses decidem aumentar a carga de impostos sobre os comerciantes. A decisão não é bem recebida e o movimento inconfidente ganha força numa certa elite junto a setores médios.

O projeto da inconfidência, ainda que bastante inovador, estava longe de ser uma “independência do país”. Foi só com a proclamação da República, em 1889, que começou a romantização de Tiradentes e outros personagens como “heróis brasileiros”. Essa ideia sobreviveu pois houve uma grande construção mítica ao redor de sua imagem. Na prática, ele e outros revoltosos eram portugueses nascidos na colônia brasileira – não carregavam nenhum patriotismo pelo (inexistente) país, e a ideia de nacionalidade ainda não havia surgido direito nem na Europa.

Mas o que isso tem a ver com a Cannabis?

A resposta não está nos inconfidentes, mas sim em seus “funcionários”…

Bom, praticamente todo o trabalho na colônia é realizado por escravos negros, os mesmos que provavelmente introduziram e difundiram a maconha no país. Como eu havia comentado, a mineração ajudou a multiplicar o tamanho das vilas e também sua população que já era majoritariamente escrava.

Apesar da ausência de maiores fontes sobre o momento, é bastante provável que nas Minas Gerais tenham surgido as primeiras “casas de ervas”, estabelecimento ou mercearia improvisada onde se vendia diversas plantas e remédios, um ponto de encontro principalmente para a população indígena e negra.

Em 1830 – quase 40 anos depois da morte de Tiradentes – surgem as primeiras leis no país já independente proibindo o “pito de pango” – como se chamava o fumo. Mas são exceções, pois não havia grande preocupação com a maconha ainda. É daqui até 1920-1930 que se criará o imaginário do negro ou escravo preguiçoso, que deveria ter certos comportamentos policiados – como seu uso da planta.

A história do mundo em que Tiradentes viveu não nos conta sobre um herói nacional, como queriam os militares. Mas fala muito do contexto canábico que deu origem às primeiras cidades brasileiras, e como desde sempre os espaços da população marginalizada são vistos negativamente. As “casas de ervas” ou ervanários eram, principalmente, local de encontro da população não-branca. Só esse fato já era o suficiente para que, em cerca de 150 anos, tais estabelecimentos fossem vistos com receio pela pequena população branca e mais abastada – enxergava-se ali uma porta aberta para a perversão, a vadiagem e a resistência de costumes tradicionais.

Pedro Costa Pedro Costa é graduando em História na Universidade de São Paulo e professor particular. Após alguns anos acumulando conhecimento sobre a história da medicina e das drogas, atualmente realiza um projeto de divulgação científica nas redes sociais (@historiotropia). Frequenta reuniões do LEHDA-USP (Laboratório de Estudos Históricos das Drogas e da Alimentação) e também é militante pela legalização. Nasceu em Salvador, mas mora em São Paulo.

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