Barbara Arranz Bárbara Arranz​ é biomédica e atualmente vive em Madri, capital da Espanha. Mulher, mãe e ativista, é fundadora da LinhaCanabica.com, uma linha de cosméticos totalmente orgânica e vegana sem aditivos químicos produzidos a partir do óleo de cannabis. Bárbara começou a pesquisa a cannabis há 11 anos, quando seu filho Raul nasceu e foi diagnosticado com a Síndrome de Asperger, um tipo de Autismo leve que gera irritações moderadas. Um de seus maiores objetivos é desmistificar a maconha e levar à cannabis até a casa das pessoas.

Dor de Cabeça e Cannabis

3 minutos de leitura

Uso de fitocanabinóides para tratar a cefaleia migrânea: a importância da dosagem correta

Apontamentos com base em uma pesquisa clínica realizada por Bárbara Arranz sobre o uso de maconha medicinal para tratar pacientes com enxaqueca (cefaleia migrânea).

Você provavelmente já sabe que cefaleia é o termo geral para designar dores de cabeça. Dentro desse espectro, a cefaleia migrânea é o nome oficial da temida enxaqueca.

Esse tipo de dor de cabeça tem origem neuromuscular e é responsável pela maioria dos atendimentos no SUS relacionados à queixa de dor de cabeça. Muitas vezes, os analgésicos mais populares não aliviam a dor, que costuma ser intensa, pulsante e constante. 

A enxaqueca pode causar crises repetidas de dor de cabeça, que podem ocorrer com uma frequência bastante variável e em intensidade moderada ou forte. Outra característica é a dor acentuada em um dos lados da cabeça (chamada de dor unilateral).

Quadros de cefaleia migrânea podem levar a limitação temporária da realização de atividades como trabalhar ou estudar. A doença também pode causar quadros de náuseas, vômitos e fotofobia (sensibilidade à luz).

Os estudos que buscam mostrar que os fitocanabinóides (substâncias presentes na planta cannabis) podem trazer benefícios para o tratamento de pacientes com cefaleia migrânea já vêm de décadas.

Recentemente eu, Bárbara Arranz, conduzi uma pesquisa – cujos resultados iniciais divulgarei a seguir – que mostra que o óleo de Cannabis realmente atua diretamente no foco da cefaleia. Há uma clara correlação entre a modulação do sistema endocanabinóide e as vias de sinalização da dor no sistema nervoso central. Entenda melhor abaixo.

Fitocanabinóides e cefaleia migrânea: uso da maconha medicinal para tratar crises de enxaqueca

Apesar do volume de estudos científicos sobre o uso da cannabis medicinal estar aumentando no Brasil e no mundo nas últimas décadas, é fato que ainda temos muito o que avançar. O preconceito que ainda ronda a planta e a falta de iniciativas públicas para fomentar a pesquisa e o desenvolvimento de medicamentos à base de Cannabis fazem com que estejamos muito aquém do desejado.

A Cannabis é uma planta fascinante com mais de 400 componentes químicos, entre fitocanabinóides, terpenos e flavonoides. Já se sabe que nosso cérebro possui um par de receptores, CB1 e CB2, que reagem positivamente ao canabinóides. A esse par, descoberto entre o final da década de 80 e início da década de 90, deu-se o nome de Sistema Endocanabinóide. Não só nesses receptores age a Cannabis, como em também nos receptores TRPV1 e nas vias dopaminérgicas.

O que mais se estuda desde então é o que pode ser feito a partir disso, qual a dosagem necessária e como a atuação dos canabinóides nos receptores pode tratar uma série de doenças.

Como pesquisadora que estuda o poder da Cannabis medicinal há anos, resolvi me aprofundar para entender como o óleo de cannabis full spectrum (aquele que conserva todos os canabinóides e outros componentes da planta cannabis) pode ajudar pacientes com enxaqueca a tratar o problema.

Na pesquisa, 420 pacientes com cefaleia migrânea foram tratados com óleo de cannabis full spectrum (com canabinóides como CBD e THC). A concentração utilizada foi de 100mg/ml – sendo que cada gota continha aproximadamente 4,1mg de CBD. A dose poderia ser administrada uma única vez pela manhã ou à noite.

Do total de pacientes, 59,5% (250) são mulheres e 40,5% (170), homens. 

Resultados e a importância da dosagem

Os resultados da administração do óleo foram animadores. Os pacientes relataram melhora substancial na enxaqueca – tanto crônica quanto aguda. Nenhum dos homens reportou reações adversas ao tratamento. Dentre as mulheres, houveram alguns relatos de reações leves, como formigamento, sonolência ou agitação noturna. É cedo para afirmar os motivos, mas desconfio que tenha relação com processos hormonais característicos.

É importante relatar que, com a adequação da dosagem, os efeitos colaterais sumiram na maioria dos pacientes. 

A maior dose administrada nos participantes homens foi de 49,2 mg, enquanto a dosagem máxima aplicada em pacientes mulheres foi de 36,9 mg. A tolerância maior dos homens aos canabinóides sem apresentar efeitos colaterais é algo que chama a atenção e precisa de mais estudos e aprofundamento científico.

Acompanhando outros estudos já publicados, nota-se uma ação conjunta do CBD e do THC no processo de analgesia para a cefaleia migrânea

Trazer essa questão da dose certa ao debate é importante, pois a dosagem de canabinóides no tratamento da enxaqueca e de outras doenças é a chave que pode determinar o sucesso ou o fracasso do tratamento.

Mas como determinar essa dosagem? A princípio, muitos estudos! Mas vai além disso. Não podemos simplesmente receitar óleo de cannabis e esperar que o paciente adeque a dosagem por conta própria. Os profissionais da saúde envolvidos na pesquisa e prescrição de maconha medicinal têm o dever de prestar uma assistência aos pacientes e acompanhar de perto o quadro.

Como protocolo, defendo que a cada 5 dias devemos receber um relatório do paciente e, a partir desse relatório, fazer a adequação da dosagem, se necessário for. 

É fundamental que o médico que for prescrever um tratamento à base de cannabis medicinal faça uma investigação da vida do paciente visando entender o contexto no qual aquele paciente está inserido e qual o seu histórico – clínico e social.

Conhecer a história de vida do paciente e seu histórico familiar, a rotina desse paciente, seus hábitos alimentares, seu emocional naquele momento, exames anteriores, laudos, etc. Questões como idade, doenças pré-existentes e sexo também precisam ser levados em consideração.

Cada organismo é um universo complexo que reage aos canabinóides de uma maneira diferente. Entender esse princípio, respeitar essas diferenças e tratar cada caso como único é o que vai fazer a medicina e a ciência avançarem rumo a protocolos mais seguros de dosagem de canabinóides tanto para o tratamento de cefaleia quanto de outras doenças.

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Barbara Arranz Bárbara Arranz​ é biomédica e atualmente vive em Madri, capital da Espanha. Mulher, mãe e ativista, é fundadora da LinhaCanabica.com, uma linha de cosméticos totalmente orgânica e vegana sem aditivos químicos produzidos a partir do óleo de cannabis. Bárbara começou a pesquisa a cannabis há 11 anos, quando seu filho Raul nasceu e foi diagnosticado com a Síndrome de Asperger, um tipo de Autismo leve que gera irritações moderadas. Um de seus maiores objetivos é desmistificar a maconha e levar à cannabis até a casa das pessoas.

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