Barbara Arranz Bárbara Arranz​ é biomédica e atualmente vive em Madri, capital da Espanha. Mulher, mãe e ativista, é fundadora da LinhaCanabica.com, iniciativa com foco em pesquisa e desenvolvimento de produtos veganos com infusão de cannabis. Bárbara começou a pesquisa a cannabis há 11 anos, quando seu filho Raul nasceu e foi diagnosticado com autismo. Um de seus maiores objetivos é desmistificar a maconha e levar à cannabis até a casa das pessoas.

Como a cannabis pode ajudar a tratar os sintomas do HIV

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A mídia vem noticiando que a ciência está cada vez mais perto de encontrar a cura para um dos vírus mais devastadores que já existiram: o HIV. Diversos estudos estão sendo conduzidos rumo a uma vacina contra a doença.

Infelizmente, o que existe por enquanto é esperança, já que nada de concreto está em um horizonte próximo. No entanto, os medicamentos disponíveis atualmente já conseguem proporcionar aos portadores do vírus uma vida praticamente normal, sem as consequências que o HIV costumava causar alguns anos atrás.

Fazendo um panorama, o governo federal estima que cerca de 920 mil pessoas são portadoras de HIV no Brasil. Desse total, 89% foram diagnosticadas e 77% fazem tratamento com antirretroviral. Além disso, 94% das pessoas em tratamento não transmitem o HIV por via sexual por terem atingido carga viral indetectável.

Fazendo um recorte por faixa etária, quase 53% dos registros de HIV no Brasil são entre jovens de 20 a 34 anos. Infelizmente, há uma tendência de aumento dos contágios entre os mais novos. De acordo com o boletim epidemiológico anual sobre HIV/Aids, elaborado pelo Ministério da Saúde, a taxa de infecções cresceu de 3,7% para 6,1% entre adolescentes de 15 a 19 anos; evoluiu de 20,6% para 36% na faixa de jovens adultos entre 20 a 24 anos, e saltou de 41,3% para 52% entre adultos de 25 a 29 anos.

Embora boa parte dos portadores do HIV estejam em tratamento e controlando o vírus, ainda há muitos pacientes que sofrem de sintomas da doença. Alguns desses sintomas são bastante incômodos e podem ser limitantes. Neste sentido, há evidências de que a cannabis medicinal pode ajudar. Mas como? Entenderemos a seguir.

Cannabis no tratamento do HIV: o que a ciência diz?

Antes de mais nada, você sabe o que é HIV? Trata-se do vírus da imunodeficiência humana, transmitido especialmente por via sexual de uma pessoa contaminada a outra. Quando não neutralizado, esse vírus ataca células específicas do sistema imunológico (os linfócitos T-CD4+), se espalhando e podendo causar a AIDS, quadro grave que pode levar a muitas doenças associadas e ao óbito.

Quando o paciente com HIV chega ao estado de desenvolver AIDS, significa que o vírus está causando uma série de infecções oportunistas (que se aproveitam da fraqueza do organismo, já que as células do sistema imunológico estão comprometidas), deixando o paciente cada vez mais fraco e vulnerável. 

Felizmente, há medicamentos que podem frear esse processo, chamados antirretrovirais. O Brasil, pelo SUS (Sistema Único de Saúde), é referência mundial na distribuição gratuita de antirretrovirais para portadores do vírus HIV. Quando a pessoa descobre cedo que porta o vírus e começa o tratamento com esses medicamentos, há grandes chances de conseguir atingir carga viral indetectável e frear as possibilidades de desenvolver as infecções da AIDS.

Estima-se que cerca de 100 mil brasileiros desconhecem que portam o vírus. Por isso é fundamental que todos os indivíduos com vida sexual ativa façam a testagem regular para o HIV e, é claro, usem camisinha durante os atos sexuais

Para aqueles que sofrem de sintomas do HIV, a cannabis medicinal pode ajudar em uma série de questões. Vômitos, náuseas, ansiedade, depressão, perda de apetite e dores crônicas podem ser sintomas da doença, especialmente em pacientes que não estão em tratamento ou descobriram tarde que portam o vírus, e a cannabis é eficaz no tratamento de todos eles. O que diz a ciência?

O estudo “Uso de cannabis no HIV para dor e outros sintomas médicos”, publicado no Journal of Pain and Symptom Management, analisou 500 pessoas portadoras do HIV, sendo que um terço delas faziam uso da cannabis medicinal.

Os resultados foram animadores: 97% dos pacientes usuários da cannabis notaram que o apetite voltou ao normal. Além disso, 94% deles sentiram menos dores musculares e 85% sentiram menos formigamento pelo corpo. Outro dado importante mostrou que 93% dos pacientes que usaram regularmente a cannabis notaram a diminuição das náuseas.

Falando sobre saúde mental, 86% dos pacientes analisados se sentiram menos depressivos e 93% deles notaram redução da ansiedade.

A cannabis possui mais de 400 componentes, dentre eles os poderosos canabinóides. Nosso organismo, por sua vez, possui um par de receptores (CB1 e CB2) que estão espalhados por diferentes regiões do corpo e reagem a esses canabinóides, produzindo diferentes resultados.

Quando os canabinóides entram em contato com os receptores, há bons resultados no tratamento dos processos inflamatórios, melhora do apetite, da disposição geral e da ansiedade. A cannabis também ajuda a regular o sono, controlar náuseas e tratar a depressão. Fique de olho em nosso blog pois há postagens frequentes de artigos falando sobre descobertas científicas em todos esses campos.

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Estudo brasileiro sobre cannabis no tratamento do HIV

Um estudo brasileiro intitulado Cannabis e o processo neuroinflamatório em pacientes com infecção pelo HIV, publicado em 2017, trouxe indícios do poder da cannabis medicinal no tratamento das inflamações decorrentes do HIV.

Conduzido pelas pesquisadoras Carolina Rangel de Lima Santos e Laísa Vieira Gnutzmann, o estudo focou em como os canabinóides podem agir como anti-inflamatórios atuando diretamente no Sistema Nervoso Central (SNC).

“A ação do HIV no SNC acontece por diferentes mecanismos, pelos quais o vírus atua como agente neurotóxico ou neurotrópico. Em especial, ocorre ativação da micróglia que passa a liberar citocinas pró-inflamatórias. O sistema de sinalização endocanabinóide realiza um importante papel sobre as células gliais, de forma que agonistas canabinóides reduzem a liberação de citocinas pró-inflamatórias e com isso o dano ao SNC, causado, ao menos em parte, pela inflamação continuada”.

No artigo, as pesquisadoras complementam:

“O potencial anti-inflamatório dos agonistas canabinóides nas desordens neurodegenerativas, tem apresentado grande relevância em vários estudos que demonstraram efeitos anti-inflamatórios nos agonistas seletivos dos receptores CB1 ou nos receptores seletivos CB2 e também dos agonistas canabinóides não seletivos”.

As pesquisadoras ressaltam que a cannabis é uma planta quimicamente complexa e que são necessários muitos outros estudos para entender como os canabinóides atuam no SNC. No entanto, o que já se sabe é promissor. 

Apesar de o HIV não infectar diretamente os neurônios (células do sistema nervoso), a doença consegue entrar no SNC e prejudica suas funções. “As manifestações patológicas do SNC resultantes da infecção associada ao HIV são complexas e incluem uma gama de alterações. As características clínicas dos transtornos neurocognitivos associados ao HIV (HAND) variam de alterações neurocognitivas leves até a forma mais grave, a demência associada ao HIV (HAD)”.

Ter uma planta com potencial de agir diretamente nessa região e conter processos inflamatórios é um passo muito importante para a condução de outros estudos e, posteriormente, de possíveis medicamentos à base de cannabis que ajudem pacientes com HIV a lidar melhor com as consequências da doença.

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Quanto mais estudamos a cannabis medicinal, mais maravilhados ficamos com os muitos poderes dessa planta milenar. O que precisamos agora é combater os preconceitos que ainda rondam a planta e investir em ciência, pois só as pesquisas, análises e debates científicos poderão trazer respostas sobre os reais poderes da cannabis no tratamento do HIV e de uma série de outras doenças.

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Barbara Arranz Bárbara Arranz​ é biomédica e atualmente vive em Madri, capital da Espanha. Mulher, mãe e ativista, é fundadora da LinhaCanabica.com, iniciativa com foco em pesquisa e desenvolvimento de produtos veganos com infusão de cannabis. Bárbara começou a pesquisa a cannabis há 11 anos, quando seu filho Raul nasceu e foi diagnosticado com autismo. Um de seus maiores objetivos é desmistificar a maconha e levar à cannabis até a casa das pessoas.

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