Barbara Arranz Bárbara Arranz​ é biomédica e atualmente vive em Madri, capital da Espanha. Mulher, mãe e ativista, é fundadora da LinhaCanabica.com, iniciativa com foco em pesquisa e desenvolvimento de produtos veganos com infusão de cannabis. Bárbara começou a pesquisa a cannabis há 11 anos, quando seu filho Raul nasceu e foi diagnosticado com autismo. Um de seus maiores objetivos é desmistificar a maconha e levar à cannabis até a casa das pessoas.

Transição de gênero: como é a terapia hormonal e como os fitocanabinóides podem ajudar

4 minutos de leitura

Transição de gênero: como é a terapia hormonal e como os fitocanabinóides podem ajudar

Entenda como funciona a terapia hormonal de transição de gênero e como os fitocanabinóides podem ajudar a melhorar esse processo.

A transição de gênero é um processo muito delicado (e esperado) por pessoas que não se identificam com o sexo que lhes foi atribuído ao nascer.

Apesar de o assunto estar sendo mais discutido atualmente, ainda existe uma grande barreira para que pessoas transgênero ou que desejam realizar a transição sejam aceitas e acolhidas tanto por suas famílias quanto pela sociedade em geral.

No Brasil, a situação se agrava inclusive por responsabilidade de algumas figuras públicas que, ao invés de acolher essas pessoas e garantir a elas o direito de serem quem desejam ser, acabam colaborando para discursos preconceituosos e que estimulam a discriminação.

Como resultado, o Brasil segue no topo do ranking como país que mais mata pessoas transgênero no mundo! De acordo com a Associação Nacional das Travestis e Transexuais (Antra), 184 assassinatos de pessoas transgênero foram registrados no país em 2020, o número mais elevado do mundo!

Além de políticas públicas e acolhimento por parte da família e da sociedade, o acesso à informação também tem papel importante no combate a tanta violência. O Brasil ainda tem muito o que avançar na discussão sobre diversidade sexual e respeito às diferenças.

Como ocorre a transição de gênero?

Muitas pessoas associam a transição de gênero à cirurgia de redesignação sexual. Embora esse seja o caminho escolhido por uma parte da população transgênero ao iniciar a transição, essa não é a única alternativa.

Parte das pessoas optam por realizar a transição de gênero por meio de terapias hormonais, recebendo hormônios condizentes com o gênero com o qual se identificam.

É importante esclarecer isso porque o órgão sexual em si não tem relação direta com o gênero que a pessoa se identifica. A cirurgia de redesignação sexual não é um fator determinante para dizer se uma pessoa é ou não é transgênero. 

Outra informação essencial que precisa ser dita é que o fato de uma pessoa não se identificar com o gênero com o qual foi designado ao nascer não significa que ela automaticamente se identificará com o outro. A pessoa pode se colocar em algum ponto dentro do espectro entre o masculino e o feminino, não necessariamente se identificando 100% com um ou outro.

Muitas pessoas transgênero optam apenas pela terapia hormonal e pela mudança de nome. Aliás, fazer a mudança do nome de registro e também do gênero que foi registrado ao nascer já é possível no Brasil. O processo pode ser realizado no cartório civil. Ao chegar lá, será necessário solicitar a retificação do nome e/ou do gênero na certidão de nascimento.

Como é a terapia hormonal?

Hormônios são substâncias muito importantes que são naturalmente produzidas pelo nosso corpo através de um sistema de glândulas. Essas substâncias são liberadas diretamente na corrente sanguínea e são transportadas por todo o corpo. Todo esse processo é chamado de sistema endócrino.

Dentre os hormônios que produzimos, dois deles são responsáveis por características físicas e sexuais das pessoas: o hormônio testosterona (produzido pelos testículos e abundante em indivíduos que nasceram com o gênero masculino) e o hormônio estrogênio (produzido pelos ovários e abundante em indivíduos que nasceram com o gênero feminino).

Homens também produzem pequenas quantidades de estrogênio e mulheres de testosterona. Portanto, esses hormônios não são exclusivos de um gênero, apenas mais abundantes em um do que em outro.

Pessoas transgênero produzem em abundância um desses tipos de hormônio, mas não se identificam com as características trazidas por ele. Por isso, a terapia hormonal é importante. Ela tem duas funções principais:

  1. bloquear a produção do hormônio abundante;
  2. aplicar o outro hormônio sexual, que ajudará a pessoa em seu processo de transição.

Nas mulheres trans, a aplicação de estrogênio diminui o crescimento de pelos pelo corpo, além de trazer outros efeitos que acentuam a aparência feminina como a diminuição da massa muscular, acentuação da gordura nos quadris e possível diminuição do tamanho do órgão reprodutor.

Nos homens trans, a aplicação da testosterona aumenta a produção de pelos, favorecendo o aparecimento de barba. Também há o aumento de massa muscular, engrossamento da voz e possível aumento do clitóris.

O tratamento com terapia hormonal deve ser feito pelo resto da vida. Mas as doses dos hormônios aplicados podem ser continuamente ajustadas. O endocrinologista é o médico responsável por receitar a terapia hormonal e fazer o acompanhamento dos pacientes.

Fitocanabinóides podem ajudar na terapia hormonal

Realizar um tratamento hormonal pode trazer alguns efeitos colaterais para as pessoas, especialmente no início, quando o organismo está se acostumando ao bloqueio de um tipo de hormônio e aplicação de outro. 

Neste sentido, os fitocanabinóides, substâncias naturais presentes na cannabis, podem ajudar. Fitocanabinóides como o CBD (canabidiol) reagem positivamente a um par de receptores (chamados de CB1 e CB2) que estão presentes no sistema nervoso e em outras partes do corpo. 

Como resultado, essa reação pode trazer uma série de benefícios, que vem sendo cada vez mais estudados por pesquisadores de todo o mundo.

Sabe-se, por exemplo, que o THC (outro fitocanabinóide da maconha) é capaz de modular diferentes neurotransmissores dentro do hipotálamo – a seção central-inferior do cérebro que conecta o sistema endócrino com o sistema nervoso central.

Muitas substâncias químicas são liberadas em nosso corpo a todo instante, para que o funcionamento de tudo possa acontecer de maneira correta. Existem os mediadores químicos que se conectam com os receptores, criando o estado de homeostase, que é o estado de equilíbrio do organismo. A homeostase ocorre quando os mediadores químicos são regulados.

Os fitocanabinóides têm papel auxiliar na promoção desse estado de equilíbrio, ajudando a atenuar os efeitos colaterais (físicos e emocionais) de uma terapia hormonal.

Dentre os efeitos positivos podemos destacar: melhora da qualidade do sono, diminuição da ansiedade e melhora do apetite.

Para que seja eficiente, a cannabis deve ser usada em forma de óleo full spectrum, ou seja, um óleo que conserva todos os componentes da planta. O que vai definir os efeitos benéficos do uso de fitocanabinóides é a dosagem – diferente para cada paciente. 

Apesar de muitos médicos ainda desconhecerem o poder da cannabis medicinal, há uma comunidade cada vez maior de profissionais de saúde que estão estudando e receitando os fitocanabinóides. 

Assim como acontece com a terapia hormonal, o uso da cannabis para fins medicinais também precisa lidar com muitos preconceitos. Investir em informação e diálogo são parte importante das mudanças que desejamos e precisamos.

Barbara Arranz Bárbara Arranz​ é biomédica e atualmente vive em Madri, capital da Espanha. Mulher, mãe e ativista, é fundadora da LinhaCanabica.com, iniciativa com foco em pesquisa e desenvolvimento de produtos veganos com infusão de cannabis. Bárbara começou a pesquisa a cannabis há 11 anos, quando seu filho Raul nasceu e foi diagnosticado com autismo. Um de seus maiores objetivos é desmistificar a maconha e levar à cannabis até a casa das pessoas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.